“Não vote em quem trambica, vote em Tiririca”; “vote em Tiririca, pior do que tá não fica”; “vote no abestado”, esses slogans compõem, na TV, a campanha do folclórico humorista Tiririca, candidato a deputado federal por São Paulo, campanha esta que vem sendo criticada por muitos, sobretudo por políticos, que a encaram como um deboche ao Estado Democrático.
Inicialmente é relevante pontuar que é possível discutir essa temática de maneira dicotômica, a saber: de um lado, está o deboche cotidiano dos políticos, que usurpam os cofres públicos e debocham da inteligência dos eleitores. Do outro, está o “deboche” de Tiririca, que ridiculariza e expõe as entranhas de um segmento (político) corrupto e ineficiente.
Milhares de brasileiros, sobretudo os honestos e conscientes, são ridicularizados diariamente por grande parte dos “representantes” do povo, que fazem propostas de campanha inconsistentes e utópicas, e que só “comparecem” na casa do eleitor de 4 em 4 anos, seja em forma de um par de sapatos, seja pelo programa eleitoral. Como se sente o cidadão comum diante dessa situação? Valorizado? Respeitado? Certamente, não.
Vive-se no país do deboche, do enriquecimento ilícito e da memória curta. Pastores presos por invasão de divisas e corrupção ativa, políticos que escondem dinheiro na meia e também na cueca, Congresso do “mensalão”, governador chefiando quadrilha, e tantos outros exemplos que, certamente, poderiam ilustrar a tese defendida neste parágrafo.
Em maio último, o Congresso Nacional aprovou o Projeto Ficha Limpa. Estranhamente houve grande frisson por parte dos Deputados e Senadores brasileiros.
O que justificaria tal comemoração, uma vez que dois terços dos políticos brasileiros respondem a processos vinculados a tráfico de influência, peculato ou corrupção? Tal justificativa encontra respaldo, sem dúvida, na certeza de que a impunidade, mais uma vez, far-se-á presente. É o deboche a serviço de interesses escusos.
Como se nota, há dois tipos de deboche no atual cenário político brasileiro, e a grande parte da população brasileira prefere, indubitavelmente, o sarcasmo do humorista Tiririca, que apesar de inoportuno e até mesmo inconsequente, pois brinca com algo sério, pelo menos diverte os lares brasileiros e, por enquanto, não põe a mão no bolso do contribuinte.
O grande problema dessa questão não é, então, a campanha debochada e sarcástica de Tiririca, mas a possibilidade de tal “programa” levar o humorista cearense a ocupar uma cadeira no Congresso Nacional. Quanto à maioria dos políticos, não é hora de condenações ao humorista, mas de seriedade e compromisso com interesses do povo.
Já ao eleitor, cabe saber fazer as escolhas corretas, analisando, dentre outras coisas, a biografia e as propostas dos políticos a serem votados. É hora de avançar!